domingo, 16 de março de 2008

Era uma vez uma praia


Hoje fiquei muito triste ao abrir o jornal e ver que a Baía de Sepetiba secou. A imagem, desoladora, lembra mais o chão do sertão. As águas daquela Baía fazem parte da minha infância, era na praia de Dona Luiza - rebatizada de praia do Recôncavo, segundo site do Governo do Estado - que eu costumava ser feliz nos verões quentes. Uma vez eu e minha prima Roseli resolvemos ir sozinhas à praia, nada demais se não tivéssemos 12 e 15 anos, respectivamente. Roseli era meio "avoadinha", termo da família, e eu um pouco mais séria, mas nada que impedisse de cometer as loucuras compatíveis com a idade. Como meus pais trabalhavam e eu ficava sozinha em casa com meus irmãos, que também não esquentavam o sofá, não havia barreiras. O cenário era perfeito. Não precisava mentir, apenas omitir: era só dizer que fui para a casa de amigos. Mas havia um detalhe muito importante: não tínhamos dinheiro e não poderíamos pedir para que não desconfiassem de nada. Juntamos alguns trocados e partimos assim, com a cara e com a coragem! Primeiro era preciso pegar um ônibus de Realengo até Campo Grande, um trajeto que durava em média 40 minutos. Chegando lá mais um ônibus até Sepetiba. Quase duas horas depois de termos saído de casa, lá estávamos, maravilhadas com o mar sem ondas da praia de Dona Luiza. Dava para mergulhar, pular e até fingir que sabíamos nadar... tudo com a mão encostando na areia, é claro. Como não tínhamos dinheiro, resolvemos levar o lanche preparado em casa: dois pães franceses, duas lingüiças e nada mais. Após quase quatro horas nessa farra, a fome, obviamente, começou a apertar. Era hora de voltar para casa. Na fila, à espera de mais um ônibus, Roseli começa a se sentir mal. Uma reação natural, resultante da combinação de muito sol, nenhum protetor solar e pouquíssima comida. Pega uma moeda daqui, outra dali.... e consegue-se o suficiente para comprar um picolé do China. O sabor escolhido foi o mini-saia: metade maracujá, metade uva. Eis que Roseli resolve dar outro destino ao picolé: a sua testa. Para mim um tamanho desperdício porque eu adorava aquela estranha mistura de sabores. Sentadas no último banco do coletivo, para aproveitar os sacolejos ao longo da viagem, tivemos uma crise de riso com a cena. Até hoje, quando raramente encontro Roseli, essas lembranças nos fazem dar muitas gargalhadas. Memórias que eu guardei aqui.

2 comentários:

Murilo Ribeiro disse...

Ô, Cálega...muito bom seu texto da época do IDH baixo. E ó, aviso de pronto: sou fã de Roseli!!!
Bj!

Florenza disse...

Gentem!!! Né que fiquei curiosa com a Roseli tb? Bárbara, precisamos marcar um chopps com vc e ela e ouvir "in loco" todas as histórias... bjos