domingo, 31 de outubro de 2010

Porque votei na Dilma

Descobri na semana passada, durante uma aula sobre Escolarização e Pobreza no mestrado, que quando criança era mais pobre do que imaginava ser. Um dos indicadores de pobreza daquela época era fazer parte da lista da caixa escolar, para receber especialmente livros e uniforme. Não tinha dimensão da situação familiar na época. Meus pais trabalhavam duro, mas não faltavam comida nem o velho ritual da compra de roupas no final do ano. Para mim era do jogo.

Quando me tornei adolescente a coisa complicou. Quis entrar para um time de vôlei juvenil, mas não tinha o par de tênis adequado. Ver a minha irmã fazer um crediário, em sei lá quantas vezes, doeu, incomodou. Graças a um bom senso tirado não sei de onde, nunca culpei meus pais. Via minha mãe acordar todos os dias às 6 da manhã, fazer a marmita e ir para o trabalho naquele trem apertado, apelidado de lata de sardinha. Enquanto isso, meu pai – que pesava em torno de 50 quilos – se espremia no 921 (Parada de Lucas – Bangu) para enfrentar uma rotina de 10, 12 horas num escritório em uma das várias fábricas de roupas em que trabalhou. Eu não me achava no direito de pedir um centavo sequer para comprar o par de tênis luxuoso e assim satisfazer o meu desejo de jogar voleibol. A saída foi trabalhar.

O primeiro emprego, aos 14 anos, foi numa loja de camisas de surfista numa galeria em Madureira. Depois, fui caixa em uma loja de borracha, auxiliar de escritório em uma grande marca de produtos esportivos (lugar de experiência traumática), auxiliar de departamento pessoal em uma fábrica de papel, secretária em uma empresa de andaimes, secretária em uma grande seguradora e, finalmente, vendedora de seguro. Durante todo esse tempo, eu alimentava um sonho: ser jornalista.. e de tevê. Gostava do Aqui em Agora exibido pelo SBT (sonhos, fazer o quê..) e, para isso, sabia que precisaria ingressar numa faculdade. Mas faculdade era sonho de rico e não foram poucas as vezes em que ouvi de amigos e até mesmo de familiares (não era maldade, era falta de conhecimento) que eu tinha mania de sonhar alto. Ir para tevê então? Ninguém ria, mas acho que ninguém acreditava.

Se tive que fazer o ensino médio particular porque não consegui vaga na rede pública, imagina a faculdade. Claro, a faculdade foi conquistada com o suor de um daqueles empregos lá de cima. Sim, foi particular. Ao longo desse período, conselhos mil eu ouvi: guardar o dinheiro da mensalidade e investir em um negócio próprio, fazer faculdade de secretariado porque era mais fácil de arrumar um emprego como secretária e por aí vai... Graças a uma professora de Língua Portuguesa que conheci na quinta série, eu não dei ouvidos a nenhum desses conselhos. Só lembrava de uma frase de incentivo dela, algo como “ você vai chegar muito longe, vai desenvolver algum trabalho em que vai falar pra muita gente”. Sim, ela era espírita, mas essa frase foi dita depois de eu escrever um trabalho de 4 ou 5 páginas sobre o teatrólogo Gil Vicente. Seu incentivo foi como uma mantra. Por frases como essa e por outros motivos que só a análise explica, nunca deixei que ninguém dissesse que eu não poderia chegar lá.

Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com a votação de hoje? Porque durante muito tempo ouvi dizer que todas as minhas conquistas foram pela minha força de vontade, mérito pelo meu esforço. Sim, eu me esforcei, mas foram inúmeras as vezes em que tive vontade de desistir, de deixar pra lá esse negócio de querer “ser alguém na vida”. Nos dias em que os ônibus não paravam e eu chegava atrasada no trabalho, no dia em que fiquei na porta da escola sonhada para cursar o bom ensino médio e não consegui a vaga, no dia em que aquela empresa traumática que citei lá em cima me mandou embora por motivos não explicados. Mas eu sabia qual era. Depois de um bom desempenho no almoxarifado fui colocada no controle de estoque de peças com defeito e, para botar ordem na bagunça, decidi fazer uma limpeza, isso mesmo limpeza igual na casa da gente. Coloquei uma bermuda de lycra e uma camiseta e fui organizar as peças. Um gerente me viu com a bermuda de lycra e achou que fazia parte do estoque da própria empresa. Conclusão não dita, mas estampada nos olhos do gerente: pobre com roupa de rico só pode ser roubada. Como não tinha noção de direitos, não recorri a nada. Só chorei!

O choro não durou muito. Consegui outro emprego logo em seguida. Mas o fato é que tem gente que não consegue parar de chorar. Recuperar autoestima não é tão fácil como supõem os livros de auto-ajuda não. E é por essas e outras que a meritocracia não funciona. Esse negocio de quem se esforça chega lá é conversa de rico para a empregada doméstica continuar trabalhando como escrava. É preciso oferecer oportunidades reais para todos. E eu vi essas oportunidades existirem nos últimos 8 anos. Se algumas delas tivessem ao meu dispor durante a minha juventude, talvez ninguém fizesse cara de descrédito quando eu dizia que iria ser apresentadora de tevê.

PS.: esse desabafo não quer dizer que não há o que melhorar. Mas basta entrar numa universidade pública hoje e ver que muita coisa já mudou. A começar pela diversidade.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Voz da razão

De uma nova amiga da academia:
- Ih querida, só estou malhando meia hora por dia. É o que dá! Não vou pra passarela....

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sou blogueira e não desisto nunca!

Os meus nove seguidores devem ter notado que sumi. O ganha-pão tá puxado e além de tudo vi que o projeto rainha de bateria não ia sair do papel. Por isso, decidi entrar de cabeça no projeto "quero ser inteligente", mesmo sabendo que homem nenhum na face da terra dá bola pra isso. Você já ouviu algum sujeito dizendo "peraí que eu quero ouvir o que essa mulher tem a dizer"? Você pode ter o doutorado naquela universidade francesa do momento, mas só tem o selo de "tá podendo" quando está de bem com outra academia, a de ginástica. Bem, mudando de assunto, você que não desistiu do meu blog dever ter reparado que meus últimos posts giram em torno da idade. E é esse mesmo assunto que me faz voltar do universo paralelo em que estava para escrever de novo aqui. Hoje fui fazer a revisão de sempre no oftalmologista e descobri que fui agraciada com um pouquinho mais de miopia . O problema maior não foi esse, foi no momento em que o querido médico coloca aquelas letrinhas miudinhas bem de pertinho e pede pra você ler. Você bem que tenta, aperta os olhos daqui e dali, mas....nada. É nesse momento que você se dá conta de que o tempo passou! Sabe aqueles óculos de leitura? Bem, de um jeito ou de outro , eles chegam para todos.

sábado, 10 de abril de 2010

Marombeira

Os mais chegados sabem que tenho andado mais no mundo das ideias do que em terra firme. A ausência da vida real tem uma explicação: o mestrado. Achava que todo mundo que fazia mestrado mentia quando dizia que era barra pesada. Língua devidamente mordida, me pego faltando com os meus compromissos para o projeto Rainha de Bateria 2011. Para quem ainda não conhece o projeto, explico: esse negócio de querer ser inteligente dá muito trabalho, por isso, e depois de passar o carnaval em um camarote de uma cervejaria, decidi que ia rumo aos 40 com o mínimo de dignidade. Para encarar essa empreitada, precisaria, claro, virar marombeira. O fato é que não tenho conseguido baixar no mundo das popozudas e das barrigas de tanquinho e, com o intuito de me resgatar, a academia enviou para mim hoje um email perguntando, elegantemente, os motivos da minha ausência. Minha mente inquieta (com a devida licença da minha amiga Isabella Saes) pensou em outras versões para a mensagem:
1) Querida amiga, você tem faltado tanto e, por isso, estamos preocupados. Não sei se você sabe, mas se ficar gorda a gente não poderá fazer muita coisa por você. Não somos igreja e, portanto, não fazemos milagres.
2) Ei, sua preguiçosa. Acorda pra vida porque pagar a academia e faltar é jogar dinheiro fora. E isso não é inteligente.
3) Querida malhadora, você tem faltado tanto...o que houve? Talvez você não se lembre, mas os 40 vem aí...
E você? Qual seria a sua versão para a mensagem?

domingo, 14 de março de 2010

O peso dos 40

A mulherada que já chegou aos 40 sabe muito bem do que vou falar. Ora bate uma felicidadezinha por estar relativamente bem, ora bate um desespero por ter que correr atrás do prejuízo mais do que aos 25, quando comemos qualquer porcaria e queimamos no dia seguinte numa corridinha básica na academia. O problema é que aos 40 o metabolismo é mau feito o pica-pau. Vai embora sem deixar nem uma cartinha de despedida. Foi num momento de desespero desses que topei - sem refletir muito sobre meu ato - entrar numa aula de lamba-funk na minha academia (que aliás merece um post aqui qualquer dia desses). Pois bem, sem medo de ser feliz, me entreguei de corpo e alma ao som de nada mais nada menos do que Rebolation. Confesso que me diverti. Mas de repente a música muda e entra um batidão com a seguinte letra:
- Eêêêêê, baraaaaaaaaalho!'

Nesse momento concluí que a dieta não é tão ruim assim e saí de fininho.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Chile

Neste domingo fez exatamente um mês que voltei do Chile. Passei oito dias das minhas férias por lá e gostei bastante do país. Aliás, voltei falando para os amigos sobre a inveja que senti da noção de cidadania daquele povo. No sábado, fui surpreendida com a notícia de que a terra tremeu. Fico triste pelos mortos, claro, mas sinto também pelos belos lugares que visitei e que, quem sabe, podem não mais existir.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Os últimos paetês

Os mais chegados sabem que amo carnaval. Todos os anos, sempre compro uma fantasia, procuro os blocos mais descolados e bato ponto na Sapucaí. Esse não foi diferente, ou melhor, foi: peguei uma gripe uma semana antes da folia, que me deixou fazer tudo isso...só que na velocidade número um. Ou seja, tive que acompanhar tudo bem quietinha, o que me tornou uma observadora ainda mais atenta. Então, vamos aos meus pitacos sobre o carnaval de 2010:

* Blocos: os mais divertidos são mesmo o Sassaricando e o Me beija que eu sou cineasta. Em ambos, as pessoas se permitem fantasiar das coisas mais doidas. O clima fica legal e não fica só com aquela cara de carnaval-pra-pegação. E por falar nisso, tive uma bela surpresa: João Suplicy, com todo respeito a "cassetete". O moço canta bem e colore os olhos das solteiras e casadas.

* Mesmo sabendo que é bom para o Rio, tive saudades dos carnavais de dez anos atrás, tempo em que ainda conseguia encontrar amigos no Bola e dançar muito no meio da Rio Branco.

* Fantasias inventadas: tenho que admitir que são bem mais legais.

* Sapucaí: ir para camarotes de empresas é uma mordomia que ninguém gosta de abrir mão, mas aturar atores e atrizes fazendo cara de "importante"- e algumas vezes perdendo a linha - é muito chato. Dá vontade de dar o cartão do analista. Esse povo acredita que há cercadinhos também no além.

* Estrelato: num camarote desses, eu lavava as minhas mãos quando uma atriz-escândalo-sessentona entra e dispara "ai, que banheiro luxo", imediatamente uma puxa saco joga o confete: "luxo é você". Ainda bem que nesses camarotes não falta Engov no banheiro.

* Mundo real: a vantagem de ir a esses camarotes é descobrir que você é super-mega-normal. Vi atrizes lindas que, apertadas em seus shortinhos, tentavam disfarçar as velhas inimigas de todas as pobres mortais: as celulites. Não tem jeito, o mundo é suburbano.

* Falta de pegada: acho a atriz-modelo-apresentadora Fernanda Lima realmente linda, mas, definitivamente, a passarela que ela domina é a da moda. Na Sapucaí ela carece de dois importantes atributos: carne e samba no pé.

* Sub-estrelato: uma pseudo celebridade bem novinha me pergunta se o agrupamento que se formava para a entrada na van de um desses camarotes era uma "espécie de fila". Sua indagação já entregava o que ele iria fazer em seguida: furar a fila. Claro que ela, bonita e nova, não poderia ficar ali como todos os outros pobres mortais, não é mesmo?

* O próximo carnaval não vai ser igual a esse que passou. Pretendo brincar de verdade, com gente de verdade!